sexta-feira, 25 de julho de 2008

Coisas da ditadura

Outro dia, conversando com muitas pessoas no messenger, elas ficam me perguntando sobre Cuba. Muitas delas, e eu sei que a culpa não é das mesmas, já tem uma visão pré-concebida da ilha. Alguns falam demonstrando tamanha “propriedade do saber” como se soubessem mais do que eu, que vivo em Cuba – acontece é que essas pessoas estão há alguns milhares de quilômetros do Caribe. Como uma vez me disseram que Fidel Castro é membro da Maçonaria. No mundo circulam muitas histórias, e em cada história muitas versões, e “quem conta um conto, aumenta um ponto”.
Ou então, por brincadeira, disseram que iriam mandar de presente a Fidel Alejandro Castro Ruz, uma bandeira dos Estados Unidos da América (EUA), respondi que tudo bem, afinal na universidade onde eu estudo há muitos estadunidenses. Não só onde eu estou, em Havana, mas por toda a ilha. Acontece que Cuba nada tem contra o povo dos EUA, porque lá há muita gente endo explorada e vítima da miséria. O grande problema é a política imperialista adotada pela elite e pelo governo “yankee”.
É falado dos cubanos que fogem da ilha. É engraçado, porque se um brasileiro vai morar nos EUA, ele não é fugitivo, ele é imigrante. Ou então o grande contingente populacional de mexicanos (muitos clandestinos) que vivem nos EUA. Pode-se falar também aos quantos uruguaios, argentinos, bolivianos que estão no Brasil e não estão legalizados e nem por isso são chamados de fugitivos É fato que na Flórida há muitos canais de rádio que bombardeiam Cuba com idéias anti-revolucionárias e vendendo a ilusão do “AMERICAN DREAM”. É lógico que as pessoas vão ficar curiosas e alimentar essa ilusão. É só atravessar o mar e chegar em Miami, pois está a menos e 150 km do “Perigo Vermelho”. Nos EUA, todo o cubano, que consegue tocar os pés na areia da Flórida pode conseguir seu “GREENCARD”, basta alegar (e somente dessa maneira se consegue) que teve problemas políticos com o regime. Chegam em Miami e vêem que aquilo era só ilusão, trinta dólares mal dá passar dois dias, então ele vê que coisas que ele tinha acesso gratuito como saúde, educação, moradia, onde ele possuía seu emprego garantido, já não é bem assim.
E há pessoas também que crêem com veemência e ainda reproduzem em seus discursos que Cuba vive uma ditadura. Pois bem, isso até soa como piada, em um país onde não há analfabetismo, não há crianças vivendo nas ruas, nem passando fome e também não há idosos nas filas de hospitais. E outra, onde há democracia, porque se Raúl Castro é presidente, houveram eleições para que ele chegasse lá. Ah, algo importante: os membros do parlamento cubano não possuem um salário astronômico, nem auxílio combustível e tão pouco um auxílio para comprar ternos da ARMANI – eles recebem conforme sua profissão, seja m´dico, professor, agricultor, metalúrgico, etc.
Há mercarias que vêm de outros países, mas não podem vir diretamente devido ao bloqueio econômico imposto pelos EUA. Por exemplo, se Cuba compra algumas toneladas de aveia do Chile, essa mercadoria não virá diretamente: primeiro ela deve ser descarregada na Venezuela ou na China, para então, de algum desses dois lugares ela chegar à ilha. Toda essa trajetória desnecessária faz encarecer os preços dos produtos.
E voltando a falar sobre ditadura, que nessa “ditadura” eu estudo medicina de graça, não somente eu, mas também jovens de 21 países da América Latina e EUA na Escuela Latino Americana de Medicina (ELAM). Não se pode esquecer que EUA, El Salvador e Porto Rico não mantém relações diplomáticas com Cuba. Além de estudar de graça, temos moradia, uniformes, material escolar, livros, material de higiene pessoal, quatro refeições diárias e ainda 100 pesos cubanos mensais. A “ditadura” nos oferece tudo isso, agora eu gostaria de saber o que países “livres” como EUA e Brasil fazem para proporcionar uma mínima infra-estrutura aos seus estudantes.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Versões X Fatos



Algumas pessoas se acham donas da verdade, ao conversar com amostras desta estirpe, muitas vezes nem perco meu tempo discutindo, um dos motivos é por educação e o outro é porque meu ouvido não é pinico. Nessas ocasiões a gente faz de conta que acredita e faz as palavras do nosso interlocutor entrarem por um ouvido e saírem por outro.
Não importam os fatos, mas sim as versões. Por mais mentirosa que seja uma versão, ela vai ser exposta tantas vezes quantas sejam necessárias até que se torne uma verdade absoluta. Então alguém um pouco mal informado adquire a verdade absoluta, se tornando o dono da verdade e acreditando piamente nela.
São ocasiões como essas em que muitos se fazem de vítimas e o grande vilão maquiavélico frio e calculista da novela das oito é o outro. Tipo, se um irmão mais novo faz alguma "presepada" e culpa o mais velho, o caçula fica tão repetitivo e pentelho que os pais acabam se convencendo de que ele é o correto. Como o ...do irmão mais velho "está na reta", ele que leva a pior. Assim ocorrem as histórias de que as torturas usadas na ditadura militar no Brasil foram brandas. Ou então que os militantes da esquerda (na época todos taxados de comunistas) eram terroristas. Sim, claro, medidas de segurança, pois naquele momento o Brasil era o "país do futuro", "ninguém segura esse país", conquistamos o Tri em 70, a nação estava estável.
E há aquela verdade sobre os países que hoje compõem o eixo do mal, segundo o juízo do "xerife do mundo: Irã; Coréia do Norte; Venezuela e Cuba. Eu não me recordo de nenhum desses países invadirem outro para roubarem as jazidas de petróleo, muito menos matar civis inocentes. Pois essa é uma versão tão pentelha que se tornou uma verdade.
Ou então um presidente que tivemos, que por dois mandatos consecutivos, entregou o Brasil em mãos do capital estrangeiro. Após seu "reinado", esse senhor ganhou títulos em muitas universidades conceituadas. Depois lança um livro, e na cerimônia de lançamento um grupo de humoristas que antes o criticavam, vão lá dar uma "puxada de saco" ("Assim não pode, assim não dá"! ). As versões foram tão insistentes e pentelhas que muitos consideram que ele foi um grande estadista.
Será que em algum lugar qualquer não estão falando de mim ou de ti? Será que não estão passando adiante alguma versão, por mais mentirosa que seja, mas que seja insistente, convincente e pentelha, que "se torne" verdade? Talvez nessa "verdade" eu e/ou tu sejamos o vilão maquiavélico, frio e calculista da novela das oito? Ou então por eu estar vivendo em um país que compõe o "Eixo do Mal" eu seja um terrorista. Há também a possibilidade de eu estar tão insistente, pentelho e repetitivo até chegar ao ponto de te convencer de minha versão para os fatos e tu ainda te tornar um dono da verdade. Tu tem duas opções: Seja um dono da verdade ou deixe que minha verdade entre por um ouvido e saia pelo outro.

Fugitivos



Ás vezes eu conecto à internet para falar com minha família, que está no Brasil, pois é um meio de comunicação relativamente viável, visto a dificuldade de comunicação externa devido ao bloqueio econômico imposto a Cuba. Numa dessas vezes, as pessoas, no messenger, me perguntavam sobre os cubanos que "fogem" da Ilha. O engraçado é que eu moro no litoral e nunca vi nenhuma balsa feita de carro velho cruzando o mar. Outra coisa, quando um brasileiro entra nos Estados Unidos pelo norte do México, com a "mão amiga" dos coiotes, ele não é chamado fugitivo, tão pouco os mexicanos. Ah, tem também os bolivianos clandestinos em São Paulo, onde servem de mão de obra barata ( e baratíssima) na indústria têxtil, e nem por isso são chamados de fugitivos.
A verdade é que, realmente, muitos cubanos moram nos EUA, assim como há muitos brasileiros também.. No Brasil há pessoas com curso superior que ao invés de exercer seu ofício em sua pátria mãe, preferem ir aos EUA, Europa ou qualquer outro país desenvolvido para lavarem pratos ou cortarem grama e são chamados de imigrantes e não fugitivos. Devo esclarecer uma coisa: não estou desmerecendo o trabalho de quem lava pratos ou corta grama, pois todo o trabalho dignifica e enobrece homem.
Se for parar e pensar na lógica das pessoas que divulgam a "idéia de fugitivo", eu afirmo que eu e mais um bando de brasileiros somos fugitivos. Estamos fugindo de um sistema desumano, o qual não oferece infra-estrutura adequada para que um estudante tenha formação profissional de qualidade. Estamos fugindo porque o povo não tem acesso à educação, saúde, moradia, segurança e cultura. Eu só sinto muito por não vir nenhum helicóptero da mídia sensacionalista nos filmar enquanto atravessávamos o mar de ideologias em um AeroWillis improvisado em balsa – o mais perigoso são os tubarões e as piranhas tentando nos derrubar.

sábado, 19 de julho de 2008

Brasil x Argentina

O brasileiro tem a memória curta, mas eu lembro bem de algumas coisas. Lembro bem das propostas de aumento do salário dos deputados, nós não saímos às ruas para protestar. Recordo também da proposta eleitoreira da “imaculada” oposição sobre o fim da CPMF. Tudo bem, acaba-se com uma carga tributária quase que insignificante, a qual gerava gordas receitas aos nossos cofres e implantam o IOF, que mete a faca direto no rim do brasileiro, ou como dizem: “meteu sem cuspe”.

Pelé é melhor que Maradona, quanto a isso não há dúvidas, mas a verdade é que nós temos muito o que aprender com os hermanos argentinos, “che boludo”! No contato que temos com com eles (aqui na universidade), nota-se que são pessoas cultas e politizadas. Na Argentina, se sobe o preço da gasolina, ou do pão, pronto... o povo já vai às ruas com panelaços e quebrando tudo. Essa é a única forma de pressionar o governo até que se consigam o que querem. A verdade é que eles distinguem quem são os vilões e quem não. No Brasil, quem decide quem o vilão é a mídia e depois nos convence de sua escolha. As madres da Praça de Maio, na Argentina também é muito conhecida. Lá vão as mães e familiares protestarem por seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar.

Um dos nossos problemas é que quando os deputados querem “lutar pelos próprios direitos” e esquecem os nossos, quando a economia de mercado regula o preço do pão nosso de cada dia, nós ficamos mais preocupados com quem vai ganhar o Big Brother, quem o Dunga vai colocar no meio campo, qual o desfecho da novela das oito ou então quem é a nova namorada do “Fenômeno”.

É muito difícil um time brasileiro jogar na Bombonera, todos sabem, a pressão é forte. Pode-se fazer uma ilustração de como as coisas deveriam ser: figuradamente, a Bombonera o Brasil, a torcida o nosso povo e os jogadores o governo. O povo deveria fazer tanta pressão para conseguir seus objetivos. Perdão pela comparação, pois eu também tenho meus traumas com a Bombonera. Digo ainda, que de uma coisa não há dúvida: Pelé é melhor que Maradona.

Soda e Lei Seca (Hic!)

É comum alguém chegar em alguma rodoviária e pedir um cafezinho. A moça do balcão sempre pergunta se é com açúcar ou adoçante. Ou em algum pub, whiskey com ou sem gelo. Como já há algum tempo. A tua avó mandava tu ir ao bolicho (pra quem não sabe, é tipo um armazém) da esquina pra comprar um litro de leite. Chegava lá, tu pedia pro bolicheiro (é o veio que trabalha no bolicho, ou é dono) e ele enrolava a embalagem numa folha de jornal. Aí ele perguntava se tu iria pagar agora ou na caderneta, e ainda receber o troco em balas. Pois é, o comércio nos oferecia essas opções. Como hoje o leite industrializado possui altos teores de soda cáustica, e o pior é que não temos a opção de escolher com soda ou sem soda. Logo, tu vai chegar no mesmo bolicho (repito, pra quem não sabe é tipo um armazém) e vai pedir uma “soda com leite”,e o pior é que não é soda limonada. Talvez as opções oferecidas vão ser de caixinha, saquinho, desnatado ou integral. E mais feio que isso, vai ser um fanho pedindo uma “soda com leite” e ainda de saquinho.

Temos que ser otimistas e ter um pensamento visionário, talvez o advento da soda cáustica no leite sejam uma das inovações da nutrição, assim como os transgênicos. Tu vai na tua nutricionista e ela vai dizer que tu precisa aumentar os níveis séricos de soda cáustica, assim como uma maior ingesta de transgênicos. Então o café da manhã vai ser leite e soda cáustica com sucrilhos transgênicos.

E agora a Lei Seca no Brasil, que motorista não pode beber, nada de álcool pode ser captado no bafômetro. Como quem não bebe pede leite, logo terão de retificar a lei para que também seja proibido conduzir veículo com qualquer teor de soda cáustica no organismo. A lei veio em boa hora, espero que ela tenha uma balança positiva. Essa lei também vai abrir novos mercados, como o de bebidas com álcool sintético, que não é detectado por bafômetro, ou ainda de carros com piloto automático como acessório de série e ainda injeção de glicose no kit de primeiros socorros. Imagina, tu vem da balada “enxaguado” e o piloto-automático da tua Belina no comando. Ah, o IPVA de veículos com piloto automático será mais caro.

Ah, vale lembrar que a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) virá com mudanças para o pessoal do AA. A carteira terá uma marca d`água quase que imperceptível: AA. E para quem já é membro do grupo de ajuda mútua, sairá mais caro para tirar a carteira, pois precisa-se de dinheiro para financiar as investigações do DETRAN.

Também a nova lei pode fazer vigorar nos brasileiros um espírito “Al Capone”, além do narcotráfico, vai ter “álcool tráfico”. E o bebum da sargeta é só a ponta do iceberg. Sem falar da receita eu vai gerar ao estado, desde as multas, dos bebunse até as propinas pagas para que ele não seja autuado por “goró” no volante. É melhor nem imaginar, pois como dizia o Chaves, “eu preferia ter ido ver o filme do Pelé.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Pão de queijo e os Pampas

Em uma noitinha dessas, vínhamos do centro de Havana de ônibus, eu e mais dois colegas de faculdade, um mineiro e uma mineira de Belo Horizonte. Passamos em frente auma praça na Avenida 23 com a G, onde éum ponto de encontro da juventude, pelo menos os mais “underground”. Então os “minerim” disseram que era tipo uma “quermése”, hehe. Desde então passamos a falar das peculiaridades do Brasil, desde os Pampas gaúchos, at・onde “os trem” fazem pão de queijo, uai... Bares, boates e outros “points” onde a galera se encontra. Eis que mencionamos as cidades pequenas, interior de Minas Gerais e Rio Grande do Sul: geralmente o “point” é a praça, de algum lado dela algum playboy (ou alguns casos agroboy) encosta o carro de seu pai (tipicamente um Gol ou alguma pick up 4 x 4), levanta a tampa e começa a escutar múicas de qualidade questionáel. Na verdade eles compram uma aparelhagem de som que como acesório de brinde vem o Gol ou a pick up.
Então ao redor do veíulo motorizado, tunado e potencialmente sonorizado começa areunir gente como ele, inclusive de tamanha e perspicaz intelectualidade. Ah sim, depois de um tempo, no outro lado encosta da praça, encosta o playboy rival com sua aparelhagem acústica que traz o carro como acessório também, polarizando os aglomerados na praça, fazendo dela um lóus BIPOLAR.
Cada qual com seus autofalantes cada vez mais altos e com suas músicas(???) cada vez piores. Algum morador próximo se sente prejudicado pelos decibéis, então chama a polícia. Ao chegarem os homens de farda, a coisa ameniza, mas ao saírem, a “bipolaridade” continua...
Não sei, apesar da pluriculturalidade brasileira, há coisas que mudam só o endereço, entre elas, governos entreguistas, neoliberais e que carecem investir em educação para que seus jovens não se tornem tão alienados quanto esses das praças brasileiras – o que está ocorrendo em Minas e no Rio Grande.

Pão de queijo e os Pampas

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O Bom Velhinho

No Brasil pode-se apertar o botão do controle remoto e aparecer um noticiário bombardeando as massas com afirmações a respeito da “ditadura” de Fidel e suas “arbitrariedades” sobre o povo da Ilha. Ou também ir em uma banca de jornais e comprar uma revista de circulação nacional e por suposto, de grande repercussão, a qual pode trazer na capa a figura do “demônio em pessoa” e a matéria aprofunda os mitos sobre Cuba, que dão a volta ao mundo.
A verdade é que não só Cuba tem mitos a seu respeito, pois a humanidade tem suas fábulas, e em todas as épocas. Vejamos Saint Clauss, o Papai Noel, de origem em S. Nicolau, segundo alguns historiadores. A Coca-Cola Company, numa jogada (e muito boa jogada) de marketing, coloriu o Papai Noel de vermelho. O sucesso vai cruzar os séculos, porque todas as imagens do Bom Velhinho são vermelhas, exceto aos torcedores do Grêmio, que sempre elaboram um Papai Noel azul. Ou então o Papai Noel pode usar uma farda verde e nas noites de Natal ele veste a roupa vermelha. Ei, espere! Se Papai Noel é vermelho ele pode ser um “perigoso” comunista? OK, já se tem uma característica, Papai Noel é um senhor de idade, barbudo, carismático e comunista. Veja bem, com essas características se enquadra o senhor Fidel Alejandro Castro Ruz.
Eu ainda não sei como não disseram que esse senhor supracitado percorre o mundo na noite de 24 de dezembro descendo pelas chaminés, deixando presentes às criancinhas. Ah, e por falar em presente, o projeto ELAM (Escuela Latino Americana de Medicina) formando mais de 10 mil médicos para América Latina, Caribe, Estados Unidos e alguns lugares da África. Essa façanha eu creio que o Velhinho do Pólo Norte não conseguiria deixar embaixo da árvore de Natal.

O Bom Velhino