sábado, 9 de maio de 2009

1ro de Maio em Cuba




Noite de 30 de abril de 2009, no polígono da Escola Latino Americana de Medicina era possível observar muitos jovens pintando faixas e cartazes de suas respectivas delegações e organizações políticas alusivos à marcha do dia primeiro de maio. Nos auto-falantes da rádio base (a rádio interna da escola) era possível ouvir músicas de Sílvio Rodriguez, Orishas, Buena Vista Social Club, entre outros. Havia também o Hino da Internacional Comunista em espanhol e pequenos trechos de falas do comandante Fidel Alejandro Castro Ruz.
Tipo umas três da manhã foi o toque de despertar para os que estavam dormindo, porque muitos estavam trabalhando na confecção das faixas. Logo era o café da manhã nos refeitórios. Em espanhol, refeitório é comedor, mas eu não vou utilizar esse termo porque vai soar feio, muito feio. Imaginem se eu digo “Às três da manhã o povo foi em direção ao comedor...” – fica muito feio.
No refeitório, eu encontrei a Fabiana (de SP)e o Genilson (da BA), que agora vive em Camagüey e enfrentou oito horas de estrada para poder marchar em Havana. Após eu pedir mais um copo cheio de café à tia do comedor, digo, refeitório, porque comedor soa muito feio. Ok, eu pedi mais um copo de café à tia do REFEITÓRIO, desci as escadas e encontrei a Cíntia e mais uma galera tirando umas fotos (das quais eu apareço em algumas). É quando a Cíntia me convence a colocar uma camisa do Grêmio. Então aproveito para ir ao quarto pegar a camiseta e mais algumas coisas que eu havia esquecido.
Volto ao polígono e já estão os ônibus (aqui chamados de guagua) posicionados de acordo com as delegações (à delegação brasileira, foi disponibilizada duas guaguas). Aí é que está rolando uma espécie de pré-concentração, encontro de novo a Cíntia e também se faz presente o Rodrigo (de Porto Alegre) com uma bandeira do Rio Grande do Sul. Resolvemos, então, juntar a gauchada e tirar algumas fotos. Não só com a gauchada, a real que o que mais tinha era papparazzi e “modelos” fotográficos (mesmo que algumas chicas não fossem guapas). No meio do “entrevero” de gente, me encontro com algumas amigas do Chile e do Perú, que me perguntam se podem ir na “guagua” do Brasil, então como “mi español es FUEDA” , respondo com uma expressão bem ao “cubanês”:
- Si! Si, como no?
E assim vamo que vamo, no meio do entrevero, mais perdido que cebola em salada de fruta, mais perdido que sapo em cancha de bocha, aglomrerado que nem mosca em bicheira. Aí que na hora as gurias decidem não irem na guagua do Brasil. Bueno, o entrevero deu uma aliviada e então apresento o Genilson aos amaradas do pré-médico que são também da UJS. Logo chegou o Paínho (o Leandro, da BA) com uma bandeira do partido, aí tiramos mais umas fotos. Depois a indiada foi ocupando as guaguas.
A escoltas das guaguas, durante o trajeto, é feita pela Polícia Nacional Revolucionária (PNR) com suas motocas italianas Virago. Ainda no percurso, foi distribuído pra cada pessoa, a “jabita feliz”uma sacola plástica com lanche e água mineral. Em ônibus de brasileiros, como sempre as musiquinhas do tipo “Se essa porra não virar, olé olé olá... eu chego láááá....” . Ok, descemos num ponto próximo ao percurso da marcha e fomos até lá.
Um fato histórico, que muita gente sabe, é que a esquerda é sectária, fato esse superado, pelo menos na marcha... assim foi visto, companheiros de diferentes correntes marchando juntos, como por exemplo PCB e PC do B lado a lado (saudações especiais aos companheiros Fernanda e Neto, de SP). Lembro-me bem de quando a Fernanda falou: “Pena que nossa diferença não é só a preposição” - para quem não entendeu, foi uma referencia às siglas partidárias PCB e PC do B.
Na Praça da Revolução mesmo, pra lá da área de concentração, havia gente de todas as partes do mundo, com destaque pra galera da França. Eis que vem uma senhora duns 40 anos e nos mostra um boné cheio de pequenos bótons, entre eles uma bandeirinha do Brasil, dizendo que já esteve lá. Então perguntamos:
- Where are you from?
- I’m from Russia.
No primeiro de maio de Cuba, é onde se concretiza a frase de Marx:”Proletários de todo o mundo, uni-vos”. Nào somente os alunos participam da marcha, mas também um bom contingente de professores e funcionários (inclusive o reitor, eu disse o REITOR) e com bastante empolgação. Eu não me lembro de presenciar no Brasil, em algum ato público em que estejam presentes funcionários, professores, alunos e o reitor, juntos, de braços dados e ainda mais, todos no mesmo mar de gente, sem acepção de pessoas. É difícil de acreditar no Brasil, mas eram doutores e faxineiros desfilando lado a lado o orgulho de serem trabalhadores, trabalhadores cubanos e patriotas. Aqui os trabalhadores tem a comemorar, afinal, é o dia deles.