quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Muertos en México

Antes de vir pra Cuba e conviver com gente de todos os cantos da América Latina, quando se falava em México, o que me vinha na cabeça era um tiozão bigodudo e borracho, sentado na calçada escorado na parede de uma casa, a qual está crivada de bala, as abas do sombreiro tapando a cara, o corpo coberto com um poncho, e na mão descansa uma garrafa de tequila pela metade (meio cheia, ou meio vazia – depende do ponto de vista, hehehe). Próximo dali, uns mariachis cantam alguma música, aí começa o tiroteio e as balas zunindo. Depois chega o Zorro pra acalmar o entrevero. Simultaneamente na velha capela, o padre tranca a porta e diz que na casa de Deus ninguém vai entrar armado, enquanto donzelas e velhas senhoras com um véu na cabeça e rosário nas mãos ajoelhadas, rezando à Virgem de Guadalupe. Longe estão os cactos no deserto, em algum bar os marmanjos bebem e na porra do piano alguém toca La Cucaracha.
Ok, creio que a maioria das pessoas pensa mais ou menos nisso. A questão é que segunda-feira passada, dia dois de novembro (no Brasil é feriado, dia de finados) no México foi celebrado o dia dos mortos, feriado lá.
Para divulgar suas tradições, a galera do México montou um altar no colégio, que eu bati umas fotos, conversei com o povo e perguntei o significado. Segundo os próprios mexicanos, é o seguinte, é celebrado desde os maias e os astecas. Mictlán, deus do país dos mortos, em dois de novembro, permite a ida dos mortos ao mundo terreno visitar seus familiares. Por isso são feitas as oferendas nos altares, com coisas que o finado mais gostava, no caso comidas, bebidas (geralmente é tequila, pois segundo o colega, no México é raro que alguém não goste de tequila). Supõe-se que os mortos saem de Mictlán (não bastasse o nome do deus do lugar, supostamente é nome do país dos mortos) a meia noite, antes de chegar ao altar, há um caminho de velas, que é para eles não se perderem. O altar deve ter os quatro elementos (terra, fogo, água e ar), alguns colocam sal e outras coisas mais. Deve ter três níveis diferentes: o mais alto representa o céu; o médio representa a Terra; o mais baixo o “inframundo”, de onde saem os mortos para irem ao segundo nível. Diz-se que depois da data, as comidas são retiradas do altar e jogadas fora, pois supostamente perderam sua essência porque os mortos a consumiram, ou seja, está sem sabor. Além do altar, há cidades onde são feitas procissões, em que as pessoas vão mascaradas, vestidas de caveira e etc. Trata-se de uma tradição mexicana de sátira com a morte, é raro, pois é único país onde se debocha com a morte, onde são feitas as brincadeiras – segundo o mexicano.
Um filme que retrata esse dia dos mortos e a procissão da multidão lúgubre e mascarada é Era uma vez no México, em que nessa ocasião a elite e os militares conspiram para um golpe de estado (incrível né, nem no cinema a milicada se aquieta). A multidão mascarada resiste às forças militares com armas na mão em prol da democracia e legitimidade mexicana. Bom, no palácio presidencial quem comanda o entrevero com a função de defender o presidente é o Antonio Banderas, um mariachi pistoleiro e seu grupo. Sem falar que nesse escarcéu, os agentes da CIA estão mais metidos que piolho em costura. Bom, só comentei o filme porque nele faz alusão ao dia dos mortos no México. Que antes de tudo, que fique claro que eu não compartilho dessas crenças, apenas acho válido divulgar as tradições da América Latina. Era isso!

Hóspede do hospital (de novo)

Havana, nove de novembro de 2009

Hoje é segunda feira de manhã, eu sigo internado no hospital da escola, mas calma, estou somente cumprindo protocolo. Bom, já explico, passei uns 2 dias com febre recorrente, tomava paracetamol, aliviava, logo voltava. Até que não melhorei e resolvi procurar o médico. Automedicação! Cuidado, não façam isso em casa, hehehe. Como já disse, Cuba possui um serviço de saúde voltado à prevenção, caso não logre, então efetua a intervenção. Para se intervir, se investiga a causa do problema e essa é tratada. Bom, por eu apresentar febre no momento da consulta, me prescreveram e administraram um antitérmico (antitérmico é o nome bonito dado a todo o tipo de remédio pra controlar a febre do vivente. Em casa é bom compressas de algodão com álcool debaixo do sovaco) injetável (eu odeio injeção – ao menos em mim, mas quando tenho que aplicar em outros, é tranqüilo). Certo, então o médico plantonista disse que seria mais seguro eu ficar internado para que eu fosse mantido sob observação para investigarem as possíveis causas da febre. Certo, “evoluiu” a uma infecção na garganta, cujo tratamento é com antibiótico, analgésico, e solução anti-séptica para gargarejo. Febre desde a noite de quinta feira, na noite de sexta eu já não tinha mais essa porcaria, mas já estava internado.
No hospital, estou em isolamento respiratório, pois toda a patologia desse tipo é isolada aqui, como medida preventiva na casualidade de que se alguém apresente positivo a A H1N1, que graças a Deus não é meu caso. Pois como já disse, Cuba tem uma medicina preventiva, e caso eu fosse um pesteado com a gripe do porco, eles não poderiam deixar um caso em potencial, infectante em estado latente, circulando por Havana disseminando a porra do vírus. E outra coisa, mais uma vez eu venho aqui pra elogiar os tratamentos e cuidados recebidos, vale lembrar que não me custa um puto centavo, incluindo as consultas e visitas médicas, exames laboratoriais, cuidados de enfermagem e principalmente os remédios. Ah, sobre a internação, também não tive que pagar um número X de mensalidades devido a tal da carência (até porque “plano e seguro de saúde” aqui é um direito básico de toda a população, no Brasil é um luxo para poucos), nem tive que madrugar na fila, ou ficar na fila eterna dentro do hospital, simplesmente só fui internado e não paguei nada.
É lógico que ficar internado em hospital não é nenhuma sensação agradável como um orgasmo, mas no presente momento foi necessário (a internação, não o orgasmo, infelizmente). Pra quem já foi internado sabe que é algo entediante, que enche o saco e coisa e tal, então pra passar o tempo eu trouxe umas coisinhas pra ler, outras pra estudar (eu disse que era um tédio), músicas para escutar e filmes para assistir, se bem que boa parte do tempo eu passo dormindo. Bom, num desses momentos que eu escutava música (baixinho, né, e além do mais, fiquei sozinho em uma enfermaria) entrou a faxineira pra fazer seu serviço de praxe, ok. Nesse momento eu havia montado um playlist bem eclético, contemplando Ramones, Chico Buarque, Engenheiros do Hawaii, Ray Charles, Rodox, Cássia Eller, César Oliveira e Rogério Melo e também Carlos Gardel, entre outros. O que vale, é que a faxineira observou que tocava uma música do Gardel, e começou a conversar comigo sobre Gardel (sobre o qual sei muito pouco) e ela me disse que gostava de Gardel. Pena que ela não me convidou pra bailar um tango. O curioso é que comecei o parágrafo falando em orgasmo e acabo em tango, porque geralmente as coisas começam em tango e terminam em orgasmo. Infelizmente o tango nem começou. MODO BESTEIROL OFF. Ok, agora posso voltar ao texto sem tangentes desnecessárias. Mais uma vez me admirei com o nível cultural do povo cubano – a faxineira gostar de Gardel e além do mais saber sobre ele. No Brasil há catedráticos que não sabem quem foi Gardel, não sabem quem é o Chico (seja Chico Buarque, ou Chico Mendes), até porque ninguém é obrigado a saber. Mas repito, me admiro da tia da faxina ter sua apreciação pelo Gardel, e com uma frase dele encerro o texto: “Adiós muchachos, compañeros de mi vida...”

domingo, 1 de novembro de 2009

Ernesta, parabens!!!

Em 31 de outubro, por muitos é celebrado o tal do dia das bruxas e coisa e tal. Não, não, pra mim não tem nada disso, é aniversário da Ernesta, a minha avó. A princípio, ela não é bruxa, mas nem por isso a gente deixa tirar onda com ela. Sinto muito por não me fazer presente nessa atual celebração, eu sempre tenho boas lembranças. A primeira que meus escassos neurônios registram é de 1993, naquela época a vó morava em São Pedro do Sul (pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, na região central do estado), onde fizemos uma surpresa, foi uma coalizão organizada pelos filhos, vizinhos e os companheiros do grupo da terceira idade, que a veia participava. E como sempre, festas na minha família, sempre tem patifaria, né, ainda mais que a vó “nem gosta” duma patifaria. Eu sei que eu não tinha nem seis anos de idade, e como sempre agitando, mas dessa vez não me lembro de minha mãe me dar nenhuma putiada (no RS, putiada equivale a mijada, chamar atenção, corretivo, ou algo do tipo), huahuahua. Sei que lá pelas tantas chega aquela procissão na casa da vó, o centro avante da procissão era um gaiteiro, não era nenhum Renato Borguetti, ou Mano Lima, mas quebrava o galho. Sei que meteram umas lâmpadas no pátio e fizeram um bailão perto da parreira, sem falar dos foguetório, que ficava a cargo do Toríbio (vulgo Pibo). Sei que lá pelas tantas eu e o Bruno (primo que regula comigo de idade, sempre junto nas patifarias) fomos tirar foto com a tal da gaita, essas fotos devem estar hoje na casa da vó.
Lá pelas tantas, não sei que porra aconteceu, a gaita quebrou no meio, e a tia Gringa foi lá com fita durex pra socorrer o borracho do gaiteiro.
Outra festa muito boa da vó, eu me lembro que foi em 2003, ela já morava em Santa Maria. Nessa ocasião, me lembro que a tia Jovelina (irmã da vó) veio de São Pedro e a tia Mariquinha (a outra irmã da vó) veio de Rosário do Sul pros festerê!!! Não quero falar a respeito da idade de minha avozinha, até porque minha outra avó (saudades), por patifaria, dizia que era falta de educação perguntar idade dos mais velhos, hehe. Tipo assim, o Claiton (meu primo e também o neto mais velho da dona Ernestina) certa vez, cogitou que a vó tinha sido garçonete da Santa Ceia, e que ela que havia fornecido a corda pro Judas se enforcar, outros dizem que ela não viu o dilúvio, mas pisou na barro.
Bom, dessa vez a festa não foi surpresa, mas a surpresa que teve não foi nenhum gaiteiro, foi um desses carros de tele-mensagem, vitrine de “pagação de mico”. O combinado era que quando viesse a porcaria do carro da tele mensagem, era pra baixar o volume da música da festa (o bailão familiar de praxe), Bueno, sei que eu fui pro portão da frente, e posso dizer que a rua era pouco movimentada e os cuscos (no RS, cusco é cachorro) dormiam no meio da rua. Tá continuando, eu vou até o portão da frente, paro, olho em direção a casa e faço sinal pra baixar o volume, eis que algumas das pessoas presentes vem correndo em minha direção desesperadas e perguntam:
- Zeca, o carro chegou?
Eu espero o povo chegar ao portão e digo:
- O carro ainda não, é que esses cusco da rua estão tentando dormir e me pediram pra baiar a música!
O povo, apesar de caír na piada, se mijou de dar risada.
Lá pelas tantas, aparece a tal da tele-mensagem, salta um xirú com uma voz grave e começa com sua voz a la Drácula-frankstein:
- Dona Ernestina...
Aí vem as músicas de sempre à aniversariante, típica é aquela do Amado Baptista “feliz aniversário, feliz aniversário...”, pior que isso seria o Amado Baptista ao vivo.
Sei que depois disso, a presepada foi cercar a veia com uma ciranda, por filho, filhas, genros e nora. O passo Número dois da presepada foi cada filho dançar um pouco com a veia, que se mijava rindo. Aí depois que o tropeço (o negão narrador da tele-mensagem) terminou a leitura, veio os nomes dos que estavam homenageando a vovó, uma lista de nomes, aí eu fui lá com meus primos dizer que faltava o nome do Neroli, aí minha mãe me deu uma puteada de leve. Sei que daí o porra do narrador não entendeu e por fim não disse merda nenhuma.
Depois, outra bem boa foi de 2005, onde arredaram os movéis e fizeram a bailanta dentro da casa da veia mesmo. Alguem encheu de ar uma camisinha e larga no meio do salão e começam as piadinhas e tal.
A de 2007, a última em que eu estive presente, foi boa também (inclusive por não ter gaiteiro nem tele mensagem), nessa tava a Cleni (que há muito tempo trocava minhas fraldas), sei que na hora do parabéns, eu que fui lá e tirei a veia pra dançar no meio da roda, o povo riu. Depois do parabéns, larguei o típico grito do sapucay, tri agauderiado. Bom, perdi a de 2008 e 2009, espero que tenham aproveitado a festa por mim.
Ernesta, que muitos 31 de outubros se repitam e que espero estar aí em muitos contigo. Como eu não estou aí pra fazer as patifarias, o povo faz por mim, porque entre os Naysinger, gente pra aprontar, isso não falta. Beijos, vó! Te amo!