sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Muertos en México


Antes de vir pra Cuba e conviver com gente de todos os cantos da América Latina, quando se falava em México, o que me vinha na cabeça era um tiozão bigodudo e borracho, sentado na calçada escorado na parede de uma casa, a qual está crivada de bala, as abas do sombreiro tapando a cara, o corpo coberto com um poncho, e na mão descansa uma garrafa de tequila pela metade (meio cheia, ou meio vazia – depende do ponto de vista, hehehe). Próximo dali, uns mariachis cantam alguma música, aí começa o tiroteio e as balas zunindo. Depois chega o Zorro pra acalmar o entrevero. Simultaneamente na velha capela, o padre tranca a porta e diz que na casa de Deus ninguém vai entrar armado, enquanto donzelas e velhas senhoras com um véu na cabeça e rosário nas mãos ajoelhadas, rezando à Virgem de Guadalupe. Longe estão os cactos no deserto, em algum bar os marmanjos bebem e na porra do piano alguém toca La Cucaracha.
Ok, creio que a maioria das pessoas pensa mais ou menos nisso. A questão é que segunda-feira passada, dia dois de novembro (no Brasil é feriado, dia de finados) no México foi celebrado o dia dos mortos, feriado lá.
Para divulgar suas tradições, a galera do México montou um altar no colégio, que eu bati umas fotos, conversei com o povo e perguntei o significado. Segundo os próprios mexicanos, é o seguinte, é celebrado desde os maias e os astecas. Mictlán, deus do país dos mortos, em dois de novembro, permite a ida dos mortos ao mundo terreno visitar seus familiares. Por isso são feitas as oferendas nos altares, com coisas que o finado mais gostava, no caso comidas, bebidas (geralmente é tequila, pois segundo o colega, no México é raro que alguém não goste de tequila). Supõe-se que os mortos saem de Mictlán (não bastasse o nome do deus do lugar, supostamente é nome do país dos mortos) a meia noite, antes de chegar ao altar, há um caminho de velas, que é para eles não se perderem. O altar deve ter os quatro elementos (terra, fogo, água e ar), alguns colocam sal e outras coisas mais. Deve ter três níveis diferentes: o mais alto representa o céu; o médio representa a Terra; o mais baixo o “inframundo”, de onde saem os mortos para irem ao segundo nível. Diz-se que depois da data, as comidas são retiradas do altar e jogadas fora, pois supostamente perderam sua essência porque os mortos a consumiram, ou seja, está sem sabor. Além do altar, há cidades onde são feitas procissões, em que as pessoas vão mascaradas, vestidas de caveira e etc. Trata-se de uma tradição mexicana de sátira com a morte, é raro, pois é único país onde se debocha com a morte, onde são feitas as brincadeiras – segundo o mexicano.
Um filme que retrata esse dia dos mortos e a procissão da multidão lúgubre e mascarada é Era uma vez no México, em que nessa ocasião a elite e os militares conspiram para um golpe de estado (incrível né, nem no cinema a milicada se aquieta). A multidão mascarada resiste às forças militares com armas na mão em prol da democracia e legitimidade mexicana. Bom, no palácio presidencial quem comanda o entrevero com a função de defender o presidente é o Antonio Banderas, um mariachi pistoleiro e seu grupo. Sem falar que nesse escarcéu, os agentes da CIA estão mais metidos que piolho em costura. Bom, só comentei o filme porque nele faz alusão ao dia dos mortos no México. Que antes de tudo, que fique claro que eu não compartilho dessas crenças, apenas acho válido divulgar as tradições da América Latina. Era isso!



·         Texto publicado no mesmo blog em novembro de 2009.

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